O que muda com a Igreja Católica na pauta eleitoral

Marcelo Montanini28 de setembro de 2026(atualizado 28/09/2026 às 18h32)
Religião entra na agenda da disputa presidencial a poucos dias do primeiro turno. Flávio Bolsonaro diz que Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ajudou a espalhar boato, o que a entidade nega
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ergueu na segunda-feira (28) uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um evento de campanha em São Paulo. O gesto ocorreu um dia depois de o senador acusar integrantes da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) de terem ajudado a disseminar desinformação sobre retirar o título da santa de padroeira do Brasil, caso ele fosse eleito. Ele não apresentou qualquer prova.
“A maior fake news da campanha foi essa sobre Nossa Senhora Aparecida, algo que nunca, não existia esse movimento para tirar ela de ser padroeira do Brasil. Jamais existiu. Não tem projeto. Não tem nada. E o PT, eu sei hoje, já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com a ajuda de gente dentro da CNBB”
Flávio Bolsonaro
senador e candidato à Presidência, em ato de campanha em Goiânia no domingo (27)
A entidade católica negou qualquer participação na produção ou divulgação de desinformação e cobrou provas do candidato bolsonarista sobre a acusação.
“A mentira não se combate com outra mentira”
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
em nota de esclarecimento publicada no domingo (27)
Neste texto, o Nexo fala sobre como a Igreja Católica entrou na pauta da eleição, explica brevemente como a instituição se organiza no Brasil e analisa o potencial impacto desse imbróglio no pleito, cujo primeiro turno acontece no domingo (4).
Como a Igreja entrou na eleição
O boato sobre a intenção de Flávio de tirar o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil ganhou força em 24 de setembro, quando a jornalista Maria Cristina Fernandes comentou na GloboNews que havia um “movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tentar tirar a Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil”. Fernandes não atribuiu qualquer movimento ao senador Flávio Bolsonaro.
FOTO: VITTOR SALES/DIVULGAÇÃO 28.09.2026
FLÁVIO BOLSONARO EM ATO DE CAMPANHA NO MERCADO MUNICIPAL DE SÃO PAULO
Após o comentário, perfis de esquerda passaram a circular nas redes sociais publicações da fala da jornalista com uma associação a uma suposta defesa do candidato bolsonarista do projeto.
A GloboNews se retratou, afirmando que a informação se baseava num projeto de lei que foi apresentado em 2007 pelo deputado federal Victório Galli (à época, PMDB-MT; hoje PP-MT) — que posteriormente foi assessor especial da Presidência do governo Jair Bolsonaro. O texto foi arquivado em 2008.
Políticos de esquerda também exploraram o tema. Em entrevista à Band no domingo (27), Lula disse que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável” e afirmou não saber “se foi fake news”.
“Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”
Flávio Bolsonaro
senador e candidato à Presidência, num vídeo publicado no X em 24 de agosto, que voltou a circular no final de semana
A declaração de Flávio associando a desinformação sobre Nossa Senhora Aparecida ao PT e à CNBB ocorre num contexto em que alguns bispos e arcebispos têm defendido publicamente nas redes sociais e nas missas o compromisso com os pobres, o fim dos jogos de azar e a soberania nacional.
Essas são bandeiras mais alinhadas à campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nos vídeos que ganharam mais repercussão nas redes sociais, não houve defesa aberta de qualquer candidato por clérigos.
Em 7 de setembro, o arcebispo dom Orlando Brandes, numa homilia no Santuário Nacional de Aparecida, fez uma defesa pública da soberania. O trecho do vídeo viralizou nas redes sociais nos últimos dias. “Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, deve mandar aqui. Aqui é nossa soberania, aqui é nossa casa, aqui é nossa pátria”, disse Brandes.
Em outro vídeo publicado em 21 de setembro pela CNBB Regional Norte 1, que abarca os estados do Amazonas e Roraima, bispos também defenderam a soberania, sem citar qualquer partido ou candidato. “É importante a soberania do Brasil, a soberania da nossa Amazônia, a soberania das nossas riquezas e bens. A democracia, portanto, é um bem precioso a ser cuidado e garantido”, disse dom Frei Samuel Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus (AM).
“Nós não temos partido, mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres. Vote pela democracia”
Leonardo Steiner
cardeal arcebispo de Manaus (AM), em trecho do vídeo da CNBB Regional Norte 1, divulgado em 21 de setembro
“Atenção à manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus. As igrejas não são currais eleitorais”, afirmou dom Guilherme Werlang, bispo de Lages (SC), num dos trechos do vídeo, numa possível referência a relatos de lideranças evangélicas pedindo votos a determinados candidatos.
Desde 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito, a religião vem ganhando mais espaço nas eleições. Bolsonaro tem entre os evangélicos uma fatia significativa do seu eleitorado.
Como a Igreja se organiza
Criada em 1952, a CNBB é uma entidade que reúne todos os bispos católicos brasileiros para organizar e definir questões pastorais e diretrizes para a Igreja no Brasil. A instituição é presidida desde 2023 por dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, e conta, grosso modo, com a seguinte organização:
a Assembleia Geral é o órgão supremo da CNBB e trata de assuntos pastorais
o Conselho Permanente é o órgão de orientação e acompanhamento da atuação da confederação e dos organismos vinculados a ela, assim como órgão diretivo, eletivo e deliberativo, nos limites do Estatuto
o Conselho Episcopal Pastoral é o órgão executivo permanente das decisões pastorais da Assembleia Geral e do Conselho Permanente
as 12 Comissões Episcopais têm o objetivo implementar as diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil
as 19 Comissões Episcopais Regionais reproduzem a estrutura da organização nacional da CNBB
A CNBB é reconhecida pela Santa Sé – ou seja, é o órgão oficial de representação coletiva e coordenação pastoral do catolicismo no Brasil. A entidade elege internamente entre os bispos os representantes para cada cargo.
Em diretrizes para as eleições publicadas em 18 de junho de 2026, a instituição deixa claro que não indica candidatos ou partidos políticos. No texto, os bispos reafirmam o compromisso da Igreja com a promoção da vida, da dignidade humana e do bem comum, além de destacar a importância da participação consciente dos cidadãos no processo eleitoral.
Segundo Gerson Leite de Moraes, professor de história e teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não há restrições em relação a manifestações políticas. “A Igreja entende que deve focar em temas humanos. E a política é uma construção humana”, afirmou ao Nexo.
Moraes acrescentou, porém, que a CNBB “é apartidária, mas não apolítica”.
A CNBB também emitiu diretrizes às vésperas das eleições de 2018 e de 2022 reafirmando que não tem compromisso político-partidário, mas defendendo a política do bem comum, com compromisso com os mais pobres e vulneráveis.
O potencial impacto do caso
Moraes destacou que Flávio tem demonstrado que, se for necessário, vai usar todas as ferramentas para mobilizar suas bases.
O professor da Mackenzie acrescentou que, ao conectar a disputa eleitoral com questões religiosas para mobilizar sua base — que é evangélica —, o candidato também acirra o outro lado — os católicos —, gerando ainda mais tensão religiosa numa sociedade já bastante polarizada.
“Por mais que haja um crescimento significativo de evangélicos, o Brasil ainda é majoritariamente católico”, disse Moraes.
Embora tenha perdido espaço para os evangélicos, os católicos ainda são maioria no Brasil, segundo o Censo 2022. Os católicos passaram de 65% em 2010 para 56,7% em 2022, enquanto os evangélicos passaram no mesmo período de 21,7% para 26,9%.
Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (28) sob o registro BR-06520/2026 mostrou que Lula liderava a preferência entre os católicos, com 48% das intenções de voto ante 29% para Flávio. A mesma pesquisa apontava a preferência dos evangélicos pelo bolsonarista, com 46% das intenções de voto contra 27% no petista.
Brenda Carranza, professora de antropologia da religião na Unicamp (Universidade de Campinas) e pesquisadora visitante da Faperj-Uerj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), disse ao Nexo que a imagem de Nossa Senhora não é associada apenas aos católicos, mas aos evangélicos.
Segundo a professora, grande parte da população evangélica antes era católica e devota de Nossa Senhora. Mesmo mudando de religião, essas pessoas seguem devotas da santa.
Ainda assim, dificilmente Flávio perderá votos de católicos ou evangélicos por causa dos imbróglios envolvendo Nossa Senhora e a CNBB. “Duvido que mudem de voto se seus votos são para a extrema direita. Porque aí não entra em jogo um problema religioso, mas um problema ideológico”, disse Carranza ao Nexo.
Ela acrescentou que muitos católicos não conhecem a estrutura ou não entendem o funcionamento da CNBB. Portanto, o atrito entre o candidato e a entidade pode não gerar impacto eleitoral.
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